Subir, bem no começo da década de sessenta, a cachoeira do Salto Angel na Venezuela, que está dentro do Parque Nacional Canaima, perto do nosso Parque Nacional do Monte Roraima, era tarefa para aventureiros destemidos. Foi lá em cima de um tepui que Kenton Miller, que ali tinha ido para fazer sua tese para obter o mestrado na universidade do Estado de Washington, quebrou sua perna. Não havia como descer com a perna quebrada. Não havia helicópteros ou aviões que o pudessem resgatar, nem sequer havia radiocomunicação para pedir ajuda. A perspectiva era a mais negra possível, ninguém queria tentar descer pelos paredões abruptos com um fardo daqueles. Mas havia um padre capuchinho generoso, espanhol, de nome Norberto que se apiedou de Kenton, um jovem idealista, bonito, engenheiro florestal, músico de certa fama e apaixonado pela natureza, e que naqueles rincões perdidos cuidou por semanas de nosso amigo. Padre Norberto, cujo nome é na verdade José Torralba e vivia no Brasil, salvou aquele que seria o maior especialista das Américas em Parques Nacionais. Kenton é enormemente grato a ele até hoje e da última vez que esteve no Brasil, na nossa casa, fizemos de tudo para encontrar Norberto ou José Torralba. Mas falhamos.
Nós todos que trabalhamos com Parques Nacionais começamos a aprender sobre planificação de um sistema de áreas protegidas com seus livros ou com o próprio Kenton, que trabalhou muitos anos de sua vida em países da América Latina, ensinando, planejando, nos mostrando no campo como executar planos de manejo. Com toda sua humildade, prestava atenção em todos, ouvia todos, desde os cablocos até os técnicos e cientistas. Como disse Marc Dourojeanni: ele é o mais latino de todos os gringos que conhecemos, a não ser pelo fato de que no seu café da manhã há que ter Corn Flakes.
Kenton participou de uma forma ou de outra, da implantação de sistemas de unidades de conservação em todos os países da América Latina, mas principalmente em Costa Rica e no Chile. No caso do Brasil, não é exagero dizer que conhece mais Parques Nacionais ou Áreas Protegidas que muitos especialistas brasileiros. Ofereceu um apoio inesquecível para a preparação dos primeiros planos de manejo das unidades de conservação do País como o do Parque Nacional de Brasília e de Sete Cidades, pois ele sabiamente se negava a fazê-los, mas dava todos os elementos para que nós mesmos fizéssemos o trabalho.
Com justiça foi eleito presidente da Comissão Mundial de Parques Nacionais da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN) e foi o que mais tempo esteve nesta posição, reeleito quantas vezes era permitido. Como era confortante para todos nós, os latinos americanos e membros da Comissão, poder falar em espanhol ou portunhol, pois ele era desses que realmente queria nos ouvir, fazia questão da nossa opinião e a valorizava ao extremo.
Claro que ser só presidente da Comissão Mundial de Parques Nacionais era pouco para ele. Aí foi escolhido como Diretor Geral da UICN, quando todos nós ainda freqüentávamos essa instituição, que é a maior do mundo em conservação da natureza.
Anos mais tarde, no World Resources Institute (WRI) foi responsável pela elaboração da Estratégia Mundial da Conservação da Biodiversidade, com a participação de especialistas de muitos países e, no caso do Brasil, esteve no seu lançamento com o então Governador Franco Montoro no palácio dos Bandeirantes e, também, no Congresso Nacional, na cerimônia de lançamento da Estratégia em português. Sempre tinha tempo para todos nós, sempre estava presente.
Há anos decidiu com sua esposa a viver em uma floresta em West Virginia a 250 km de Washington, aonde para se chegar há que se fazer 15 km de estrada de terra, isso quando o rio não está cheio, ou a neve não a bloqueia, e construíram uma espécie de cabana gigantesca, com todos os cuidados ecológicos. Plantam suas verduras e legumes, colhem suas frutas, que devem proteger contra ursos, veados e perus selvagens, fazem geléias e doces, limpam as estradas. Caçam, aplicando as mais estritas pautas de manejo da fauna, na época certa e escolhendo os indivíduos permitidos. Aí os preparam para terem carne ou lingüiça para todo o ano. Entregam o lixo inorgânico em um coletor a 15 km da cabana, devidamente separado por cores e outros requisitos e com o lixo orgânico fazem compostagem. Vivem a 80 km do supermercado mais próximo e não têm empregados. Não existe televisão ou telefone celular. Quando algo mais grave acontece, como quando Susan quebrou sua perna, um helicóptero foi resgatá-la e levá-la para um hospital. Mas eles seguem ligados com seus inúmeros amigos do planeta todo por meio da Internet.
Kenton tem, há nove anos, um câncer grave. Já fez de tudo: quimioterapia e transplante de medula, ele ficou meses em uma bolha, afastado de tudo e de todos e até hoje é obrigado a usar medicamentos muito pesados três vezes ao dia e uma série de outros menos danosos, bem como dormir com um inalador, que o ajuda a respirar. Pensam que parou de se entusiasmar para visitar áreas protegidas? Que nada. Quando estiveram conosco em Florianópolis de férias se encantaram com a visita que planejamos para eles, com a ajuda do pessoal do IBAMA, para conhecerem a Reserva Biológica do Arvoredo, um passeio de barco de 5 horas. Visitamos ainda uma RPPN, um Parque Estadual, e APPs e ele como uma criança se encantava com tudo, como se não conhecesse o que de mais espetacular existe no mundo!
Não é à toa que além de todos os prêmios que recebeu, existe um com seu nome: Prêmio Kenton Miller, outorgado pela Comissão Mundial de Parques Nacionais a aqueles que fazem algo de inovador, criativo e sustentável para a proteção da biodiversidade.
Kenton atualmente dá aulas, palestras e conferências, uma das quais foi dada em um dos nossos Congressos Nacionais de Unidades de Conservação e escreve. Está escrevendo um livro que, pelas conversas que tivemos, parece muito interessante sobre suas viagens e experiências nos tepuis da Venezuela e o Salto Angel. Este salto, o mais alto do mundo, foi descoberto por um aviador, Jimmy Angel, em 1937, que à busca de ouro teve de aterrissar de emergência em cima do tepui e lá ficou seu pequeno avião quebrado por décadas. Só foi resgatado em 1972. Assim, o salto tem o nome de um aventureiro não muito católico, pelas histórias que dele contam. Um parque nacional protege toda a região: Canaima tem 3 milhões de hectares e foi estabelecido em 1962.
Exemplo de vida, de coragem, de sabedoria, Kenton fez o que fez porque foi salvo pelo padre Norberto. Não acredito que padre Norberto, como muitos outros e entre eles principalmente os jovens, que hoje trabalham com Parques Nacionais, conheçam a carreira e a importância de Kenton Miller, como salvador do muito que hoje está protegido da biodiversidade no mundo. Obrigada padre Norberto ou José Torralba, aonde quer que esteja por ter o senhor também sido um herói de bondade que salvou o nosso herói dos Parques Nacionais.